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Agricultura de Mato Grosso está em xeque, dizem especialistas

O espírito da veterana engenheira agrônoma Ana Primavesi, autora do clássico “Manejo Ecológico do Solo”, pairou sobre o I Simpósio Agroestratégico “Repensando a agricultura do futuro”, promovido pela Aprosoja-MT em Cuiabá nesta quinta-feira. Primavesi foi uma das pioneiras na preservação do solo e recuperação de áreas degradadas, abordando o manejo do solo de maneira integrada com o meio ambiente, o que soava como uma nota dissonante frente à chamada revolução verde, que pretendia resolver todos os problemas da agricultura com a aplicação de adubos químicos e agrotóxicos. Foi taxada de ecologista e seus ensinamentos não foram absorvidos na medida da sua importância para a agricultura tropical.

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“Ela tinha razão, pena que não escutamos a velhinha”, desabafou o agrônomo formado pela Esalq e produtor rural José Eduardo Júnior, que planta 1.200 hectares no médio-norte de Mato Grosso. Segundo ele, a agricultura está numa encruzilhada, com o atual sistema de produção incapaz de responder aos investimentos. “O solo está pedindo socorro, está doente, esgotado com a monocultura da soja em sucessão com milho e algodão”.

Este foi o tom que dominou o evento, em que pesquisadores da Embrapa e da Fundação Mato Grosso assinaram embaixo das palavras de José Eduardo. Para uma plateia de uma centena de produtores rurais de todo o estado, eles criticaram o modelo atual e pregaram o estabelecimento de um “sistema de produção” e não apenas de “sistemas de cultivo”, como tem sido praticado – ou seja, o agricultor não pode levar em conta apenas o que fazer na próxima safra, mas sim obter resultados nas lavouras garantindo que os recursos naturais mantenham-se à disposição ao longo dos anos.

“A produtividade da soja está estagnada há quinze anos, a do algodão também, com um agravante: quase todo dia o agricultor tem que entrar pulverizando a plantação, às vezes chega a 30 no caso do algodão”, disse o pesquisador Leandro Zancanaro, da Fundação MT. “Usamos cada vez mais tecnologia e nada de aumentar a produtividade. Nunca investimos tanto, mas cadê os resultados”. Para ele, está-se confundindo ferramentas tecnológicas com tecnologia, que significa conhecimento e não equipamento. “Não sei se agricultura de precisão é conhecimento… Nós não procuramos entender as plantas. Áreas corrigidas há muito tempo começaram a ter outros problemas”. Zancanaro citou a revista AgroDBO de agosto de 2014 que tratou do campeão de produtividade Cesb do ano passado. “Ele teve alta produtividade, mas a revista registrou que foi numa área pequena e que se diferenciava do restante da propriedade”.

José Eduardo Júnior mostrou o que vem fazendo desde 2007 para driblar os caprichos da natureza: observá-la. “Temos que aprender com ela”. Em sua propriedade, ele implantou um sistema que integra rotação de culturas, consorciação, plantio de cobertura, sempre em plantio direto, até mesmo de arroz, além da soja, milho, braquiária, crotalárias, pé-de-galinha, nabo forrageiro, milheto e trigo mourisco. Segundo ele, já no primeiro ano notou diferenças na lavoura, que passou a contar com um volume maior de matéria orgânica no solo, e a cada ano que passa percebe maior produtividade nas culturas. A matéria orgânica proporciona o equilíbrio e diversificação da microfauna do solo – hoje ele convive sem problemas com nematoides, pois estão em equilíbrio no ambiente – e o aumento da fertilidade em geral do solo, o que tem proporcionado à sua fazenda um ganho até 60% maior que a média da região, entre economia de adubo e defensivos e elevação da produtividade.

“Esta é a nova onda da agricultura, que nada mais é do que a velha fórmula da dra. Primavesi”, define Júnior. Zancanaro emenda: “Temos um ganho com a genética, mas a condição fitossanitária está se agravando e é ela que vai nos fazer mudar”.

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